A primeira vez... Confiança e julgamento - Rafael Baltresca

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A primeira vez… Confiança e julgamento

by Regiane Queiroz

Ao longo dessa semana, tive a alegria de observar duas crianças muito fofas em momentos diferentes de suas vidas. Uma delas está com 4 meses e, pela primeira vez, comeu papinha de frutas.

PapinhaEla nunca havia experimentado nada além do leite materno. Isso considerando alimentos, é claro, porque nessa idade tudo vai parar na boca dos bebês (dedos, brinquedos, etc.). Enquanto a mãe preparava a papinha, a pequena sorria, agitava os bracinhos e parecia feliz, mesmo não tendo a menor ideia do que iria acontecer. Sua mãe lhe ofereceu então uma colher com a fruta e a bebê logo empurrou o objeto para dentro da boca, engolindo aquela coisa tão estranha e diferente de tudo o que já conhecia. Primeira reação: caretas e um pouco de ânsia. Não houve rejeição da segunda colherada e a bebê terminou por comer tudo o que lhe haviam preparado.

Também estive com o filho de um amigo, um garotinho já com seus 4 anos de idade. Estávamos todos à mesa para jantar, quando o pai foi lhe servir a comida. “Pai, eu não quero esse negócio amarelo…”, disse o pequeno referindo-se à batata do picadinho de carne. Segundo a família, o menino normalmente gosta de batatas (palha, frita), porém, feita daquela forma, nunca havia experimentado. Todos tentaram explicar para o menino que era apenas a batatinha, que ele tanto gosta, que estava junto com a carninha, que ele também gosta… Nada feito!

Por que a criança maior não confiou no que os adultos estavam dizendo? Por que julgou não gostar da batata mesmo sem ter antes provado? Em que momento da vida passamos a ter um julgamento prévio das coisas? Quando passamos a ter confiança nos outros ou a desconfiar do que nos dizem?

Algumas correntes da Psicologia (e de outras ciências que estudam o comportamento humano) afirmam que, desde o nascimento, já possuímos alguns reflexos de sobrevivência. Sugar, segurar, apertar, etc. Outros comportamentos, porém, precisam ser aprendidos ao longo da vida e, para isso, precisamos de um outro, de alguém para nos dizer o que fazer, nos ensinar sobre as coisas do mundo.

Outra forma de adquirir conhecimento sobre a vida é através da experiência própria. Algumas coisas só aprendemos depois de experimentarmos, como quando colocamos o dedo na tomada para ver o que acontece, mesmo depois de termos sido alertados sobre o choque que levaríamos.Ou quando misturamos vários ingredientes em um pote e descobrimos uma sobremesa dos deuses. Assim, vamos construindo sozinhos nossa opinião sobre os fatos. No primeiro caso, alguém até nos falou algo sobre o mundo, porém decidimos ir ver com os próprios olhos (ou dedos) se aquela informação era real e de confiança.

Quanto mais informações verdadeiras um adulto passa para uma criança, mais confiança ela vai adquirindo naquela pessoa. “Pode vir que eu te seguro” geralmente só funciona mais de uma vez nos casos em que a criança não cai de cabeça no chão ou da bicicleta. “Não vai doer, é só uma picadinha…” Oi??? Como assim não dói? Doeu pra ca… Por que mentimos assim para a criança? Não é à toa que depois ela passe a não confiar mais no que dizemos e resolva seguir seus próprios instintos. Ela vai ter que começar a julgar as coisas pelo que já sabe, pelo o que elas parecem e muitas vezes vai errar. Às vezes, um bifinho pode ser um fígado disfarçado; outras vezes, uma batata é só uma batata.

Nós mesmos fazemos isso e muitas vezes também erramos. Quando julgamos algo ou alguém pelo o que se parece, sem antes conhecer, estamos agindo como a criança traumatizada depois de ter sido tantas vezes enganada por aqueles que tanto ama. “Essa pessoa parece suspeita”, “não sei por que, mas não fui com a cara”, dentre outros milhares de julgamentos que cotidianamente fazemos, são reflexos de um medo interior adquirido ao longo da vida.

Precisamos aprender a falar mais a verdade, principalmente para aqueles que pouco sabem da vida ainda, para que eles não precisem se guiar por seus julgamentos, muitas vezes cegos e cheios de “pré-conceitos”. Quando falamos “olha, vai doer, mas depois vai passar e eu vou ficar do seu lado” estamos sendo sinceros e ajudamos a criança a confiar no que dizemos, pois o que é dito condiz com o vivido.

A confiança nos ajuda a experimentar a vida de forma mais livre e intensa, sem a barreira dos julgamentos que nos bloqueiam. Como quando experimentamos uma papinha de frutas pela primeira vez: com um sorriso no rosto diante do estranho e do desconhecido.

Regiane Queiroz

Psicóloga especializada em clínica infantil e saúde mental, hipnóloga clássica formada por Rafael Baltresca e fascinada por tudo o que se refere à experiência humana.

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